[Reflexão para o novo ano]


"Eu sou eu e minhas circunstâncias", dizia Ortega y Gasset, apontando de algum modo para nossa inescapável condição, a de sermos o centro do mundo. Cada pessoa enxerga as coisas ao seu redor a partir de sua própria ótica, e não raro as mede pela estreiteza ou amplitude de sua contemplação. Isso significa dizer que só conhecemos em profundidade a nós mesmos, e das coisas nos ficam um quê de superficialidade, porque só lhes podemos ver as aparências, os ditos e feitos de seu existir.


Se encerrássemos aqui, tudo não passaria de um imenso solipsismo, cada um encarcerado em sua própria imensidão. Mas o sentido de nossa centralidade está em percebermos a teia de relações que cada coisa estabelece com as demais, de tal forma que cada uma delas também é, de todo modo, o centro de seu universo, a profundidade de suas aparências. Significa dizer que para compreendermos algo ou alguém em sua profundidade, é preciso considerá-la, por um momento, como o centro do (nosso) universo, a fim de podermos entrever o que ela é para além da mera superficialidade.


O mesmo Ortega y Gasset nos convida a refletir – “O ideal seria fazer de cada coisa o centro do universo... E não é isto o que faz o amor?” Porque para compreendermos o outro é necessário amá-lo, com aquele amor que unifica e sintetiza, com aquele desejo-de-possuir-para-si que os gregos chamaram Eros: possuir por um momento sua profundidade, sua visão de mundo, sua compreensão das coisas. Encarar o outro como um mundo em sua teia de relações, tão centrais quanto nós, é o caminho para compreendermos ainda melhor o lugar de nosso próprio centro, de nossa profundidade.


Quem pensa poder descobrir-se a si mesmo em sua essência sem olhar para os diversos centros que existem ao nosso redor, e com os quais estamos determinados por relações e circunstâncias, jamais conseguirá escapar de sua própria superfície, medindo o mundo ao redor a partir de sua estreiteza de visão. Ampliar horizontes, no que diz respeito à nossa humanidade, é o mesmo que “amar o próximo como a ti mesmo” – essência última da religião e da filosofia, e por isso mesmo de toda a vida humana de valor.


Que para o próximo ano, possamos todos mergulhar em “mares nunca dantes navegados”, amando nos outros aquilo mesmo que é possível conhecer de nós e que só se revela se deixarmos as águas turbulentas da superficialidade em busca do centro do mundo, a visão mais bela possível da riqueza de ser humano.


Um feliz 2018 a todos!

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