Pobreza e feiura nossa


Sócrates, que era pobre e feio, operou uma renovação na forma de lidarmos com nossas ideias e nossos conhecimentos, mostrando que o que há de maior valor está na essência e não nas aparências. Um nietzschiano poderia rebater denunciando que essa renovação era apenas uma estratégia, para fazer com que se olhasse mais para sua beleza interior que para a falta dela no exterior. Estratégia ou não, o que Sócrates aponta é uma verdade que se traduz na incapacidade que temos de determinar o valor de certas pessoas pela sua aparência, seja raça, sexo ou status social. Entre nós, temos exemplos diversos, mas o caso emblemático de Machado de Assis supera qualquer alfinetada nietzschiana contra a essência: pobre e feio, nosso escritor é ainda o maior gênio literário que essa terra de Vera Cruz já produziu. A triste ironia é que os ricos e belos não o leem por ser antiquado, enquanto os pobres e feios não o leem por ser incompreensível. Não percebem, ambos, que a própria arte de Machado é a demonstração de que a verdadeira essência nunca será antiquada, nem incompreensível, aos que decidem procurar beleza em algo que não seja mera ilusão. Se o brasileiro se descobrisse em Machado de Assis, descobriria a razão de ser de sua feiura - e aí, talvez, começasse a se tornar um pouco mais belo, por dentro.

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