Rosshalde, de Hesse


Em Rosshalde, o romance de Hesse encontra lugar. De certo modo, é a propriedade Rosshalde o território que dá vida ao drama descrito. Mas não é o lugar a personagem principal do livro, nem mesmo a motivação para o que se verá acontecer. É tão-somente um lugar. Território onde o verdadeiro drama acontece, drama de um pintor encarcerado numa vida que não lhe rende mais a paixão em viver. Esse é o verdadeiro drama do livro. A propriedade Rosshalde não é senão o lugar onde a vida não vivida voltou a possuir o desejo em viver -- desejo que só pôde nascer com a morte.


Veraguth, o pintor sem vida própria, há anos dedica seu viver aos quadros. O sucesso de sua arte esconde, aos olhos do público, uma vida familiar fracassada: já não dorme mais na mesma residência que a mulher e o filho, o pequeno Pierre que é, chega bem tarde à conclusão, a sua única motivação em continuar preso à Rosshalde, tratando-se o casal como estranhos suportáveis apenas como pais do pequeno. O seu último quadro é a expressão singela desse desnível matrimonial. A tela reproduz um homem e uma mulher apáticos em lados opostos, enquanto no meio brinca vivamente a criança do casal. É mesmo o quadro da vida do seu autor. Ao terminá-lo, Veraguth já está ciente de que reproduz sua desgraça. Sua arte é a viva expressão de uma existência morta para o mundo e para si mesmo.


A visita do amigo de infância servirá como um frescor renovado aos seus dias frios. Relembrando os áureos tempos de juventude, Veraguth e Otto percorrerão paisagens e sentimentos silenciados pela distância. Em silêncio, vê o amigo a vida sem sentido que o pintor insiste em sustentar. Às vésperas de partir, contudo, não pôde mais manter-se calado. Otto faz ver a necessidade de que Veraguth se entregue à vida novamente, respire o ar da liberdade, ou sua arte não será senão uma pálida lembrança da vida que não teve e se negou a ter. Nem mesmo Pierre, o filho amado, pode ser um empecilho ao desejo de rejuvenescer. A infância do garoto deve servir de esperança ao que ainda resta por resgatar.


Diante de tamanha angústia, decide o pintor em seguir o conselho do amigo. Seu temperamento explosivo não tem qualquer sintonia com a frieza quase calculista da mulher Adele. O filho mais velho, que em férias dos estudos chega à Rosshalde, é o emblema da crise familiar que distancia marido e mulher. Apegado à mãe, vê o pai como a causa de toda a miséria sentimental da família. Como poderia o pintor não desejar apenas e tão-somente o amor do pequeno Pierre, que lhe venera com a inocência e a pureza de criança? A maior renúncia será mesmo ter de partir e deixar Pierre, não vê-lo mais o sorriso e a inteligência. Mas sua decisão é firme e irresoluta. Será preciso morrer a semente para que a árvore nasça e dê frutos.


Pois assim que se encontra deveras decidido a partir, o filho pequeno cai doente. De uma sem importância reação digestiva, o garoto passa a apresentar um quadro paulatinamente mais grave, à medida que os sintomas aludem, para o único médico da cidade, ao que parece ser uma doença grave e incurável. O pai, informado da situação, abandona a pintura e se prostra dia e noite ao lado do filho, a fim de ao menos diminuir-lhe o sofrimento. Como nunca, a casa Rosshalde parece respirar um ar mais cordial e amoroso entre seus habitantes. A mulher Adele, ao saber da partida do marido, sofre no peito os temores em ver o filho doente e a vida que até então era estável e confiável saírem de seu domínio. O chão parece se abrir sob seus pés. A delicadeza com a qual Hesse vai tecendo aquelas aspirações e frustrações no coração de cada personagem revela uma maestria digna de uma pintura, ao fazer ver simultaneamente todos os laços que, frágeis, ainda são o fio de esperança daquelas vidas. E não resta mesmo qualquer esperança ao final: o pequeno Pierre, símbolo maior da união de duas vidas incapazes de voltar a viver unidas, perde sua vida em uma narração de nos levar às lágrimas.


Somos nós, leitores, quem deixamos correr as lágrimas. A agonia final do pequeno Pierre constrange a que se veja no casal deplorável certa culpa pelo destino irremediável. Quem é pai sabe o que essas personagens estiveram sentindo. Agora, porém, não havia o que fazer. A decisão de Veraguth estava tomada. A mulher e o filho mais velho partem de Rosshalde, do mesmo modo que o pintor também partirá, rumo a Índia, a um novo mundo. Rosshalde ficará para trás, como para trás ficaram as alegrias e as mazelas de anos de existência. É mesmo possível dizer que a morte, nesse caso, trouxe de volta a vida. Mas apenas para Veraguth. Adele sai de Rosshalde enfraquecida e inócua. É terrível, para ela, a dor da perda. Se nos parece haver o pintor superado melhor essa dor, isso se deve ao que há de mais firme na fragilidade geral de nosso existir: o encontro com a liberdade de si é quase a única árvore capaz de nascer ao ser regada pelas lágrimas da perda. E para a liberdade, são poucos os que estão preparados a viver.

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