Ódio à humanidade


Quando se vê um caso de violência gratuita contra crianças em uma creche ou contra o público de um show, sem contar outros inúmeros casos diários de egoísmo, ignorância e barbarismos, a reação mais imediata de algumas pessoas, ilustrada vez ou outra por frases como "pare o mundo que eu quero descer", acaba em um desgosto com a humanidade que muitas vezes aparece como ódio ao humano e a tudo o que lhe diz respeito.


É claro que uma reação como esta não é casual, mas indica ao menos duas coisas: (1) que nós deveríamos estar, por obra não se sabe de quem, mais evoluídos que nossos antepassados porque, afinal de contas, estamos no século XXI; (2) que esses casos que nos chocam levam muitos a perderem a confiança no ser humano porque no fundo se imagina que a maldade seria algo que não faria parte de nós, tal como Rousseau imaginava seu bom selvagem corrompido pela sociedade.


Pois bem, se há angústia e revolta contra a humanidade nesses casos, elas são sem razão visto que estão baseadas em noções acerca do humano que não se sustentam. Sobre a primeira delas, não há qualquer progresso na história humana que não esteja acompanhado de um retrocesso em outros aspectos, e pensar que não deveriam existir certas atrocidades "porque estamos no século XXI" é no fundo acreditar que a história humana seria uma escalada rumo à virtuosidade, o que ela não é em absoluto.


Sobre o segundo caso, qualquer pessoa que se conheça o mínimo que seja sabe que a maldade está sempre em nós como uma possibilidade, tal como a bondade, e que pensar em humanos completamente maus ou bons é achar, na verdade, que a natureza humana não deveria ser como é.

Em ambos os casos, o ódio ao humano, como Sócrates já havia diagnosticado, é consequência de um desconhecimento de nossa própria condição. Eu diria que ele inclusive deriva de um otimismo exagerado com relação ao progresso, que é próprio das épocas históricas em que os homens acreditam possuírem o máximo de conhecimento e poder -- quando no fundo não são mais ignorantes e impotentes do que sempre fomos.


Ao invés de odiar a humanidade, e a nós mesmos em consequência, odiemos a ignorância. É sempre o melhor caminho.

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