A Caverna, de Saramago



Saramago é habilidoso. Sabe criar situações inusitadas, outras ainda tão simples que transbordam do cotidiano para os seus livros, com a força que só as palavras bem escolhidas podem engendrar. Saramago é habilidoso com as palavras, de um modo que as torna tão comuns que nos parecem vizinhas ou parentes próximas, com as quais escolhemos conviver apesar da proximidade. O tecido de palavras criado por Saramago é uma habilidade à parte, como o é seu fino humor que nos deixa com um poucadinho de saudade da Portugal de nossas raízes. Saramago, não obstante o ser hábil, é ele mesmo uma saudade.


Também somos risonhos, por certo, mas nosso riso não é irônico: é deboche, é evitar o choro pela risada fácil, quando o que se vê de mais miserável está bem à frente, no espelho. Rimos porque não queremos chorar e com isso reunir forças para enfrentar a dura realidade. Não somos irônicos, porque a ironia depende de uma sutileza a extrair da situação trágica sua lição fundamental, não porque a evita ou a despreza, mas porque a compreendeu em seu caráter inevitável. Nós rimos de inconformados, sempre espantados com o que nos acontece. Falta-nos compreensão.


E caímos ainda mais fundo na ignorância quando decidimos renegar nossas origens. Certo ódio ou mesmo ingratidão a Portugal encontra-se refletido nas troças que fazemos do homem português, de um Dom João VI ou de sua mulher, mas também no amor pelo francês ou pelo americano, sempre entendidos como mais evoluídos, sempre vistos como se devessem ter sido nossos conquistadores, nossos colonizadores. A miséria do pão que comemos, pensa-se, deriva daquela Portugal inútil.


Essa ingratidão melhor se materializa no desprezo pela língua portuguesa, alimentado toda vez que se rejeita as regras em vista de um falar mais relaxado. Essa ingratidão deixa o brasileiro com uma sensação de orfandade, criada por ele mesmo quando não honra seus pais. O que há de mais honroso em nosso nascimento, a língua que nos é ensinada e que nos permite dominar o mundo e a nós, ao ser desprezada leva o brasileiro a se tornar desprezível. Não há como rir dessa miséria. Falta-nos um mergulho maior e profundo em águas atlânticas, que nos conduzam de volta a redescobrir a terra de nossos pais. Falta amor pela língua.


Talvez soe estranho falar de amor à língua quando se menciona um escritor que perverteu muitas das regras próprias ao português. Sua escrita é própria, traz a língua para dizer o que deseja com a forma mais própria ao que é dito, porque essa é a habilidade do grande escritor. E de habilidade, Saramago entende bem. Tão hábil que nos faz ver a vida por trás da língua, utilizando-a com a riqueza que lhe é própria, por vezes para dizer o que é mais miserável. Se o brasileiro soubesse ler e amar sua linguagem, saberia compreender melhor a si mesmo e ao mundo, saberia não mais rir da sua miséria por bufonaria. É possível aprender com a própria miséria: só quem se deixa estar a ler, como em um livro, aquilo mesmo que somos.


A Caverna, de Saramago, forja-se exatamente como uma metáfora de nossa miséria – não a de nós brasileiros, por certo não apenas a nossa. O destino humano, assustadoramente retratado pela “alegoria da caverna” de Platão ao século IV a.C., serve de inspiração a Saramago para compor o que lhe parecia ser uma imagem da vida na cidade, reduzida ao Centro de suas expectativas e de suas vontades, ambas ludibriadas pela mística linguagem de propagandas. A caverna descoberta bem ao centro da vida contemporânea é a reprodução do próprio fundamento desta vida, a base sobre a qual a civilização é construída, seu mundo de sombras e de irrealidades, seu universo controlado que impede o acesso ao mundo real.


Mas o sentido de Platão foi aqui invertido. O filósofo grego, profundamente sensibilizado pela morte de seu mestre, havia retratado o modo pelo qual Sócrates – ou qualquer filósofo, inclusive o próprio Platão – quando sai da caverna das sombras e encontra a realidade e o conhecimento, ao retornar se apresenta tão estranho aos prisioneiros que estes o matam, por temerem o poder da verdade. A caverna é a ilusão, e quem vê a verdade transforma-se em ameaça aos que se perdem na escuridão.


Em Saramago, a descida à caverna é, antes, o encontro com a verdade. Cipriano Algor, um artesão que vê seu trabalho inutilizado pela mudança de gosto da gente citadina, não mais afeita a objetos de barro como antigamente, é levado a morar no Centro devido à promoção de seu genro, e procede a uma verdadeira experimentação de tudo que há para ser visto na tão famigerada, brilhosa e atraente cidade. Um homem das antigas, porém, não se deixa levar assim tão facilmente pelas novidades propagandísticas, e sua reserva contra o Centro estará justificado pela novidade da descoberta da caverna. Ao final do livro, o velho artesão, aquele mesmo que tinha como labor construir imagens das coisas, desce à caverna e encontra os prisioneiros, encontra a morte e a si mesmo. Somos todos nós.


Nós que decidimos construir para nós uma cidade que é imagem da natureza real, seguimos escondidos nesta caverna enquanto o mundo lá fora se esquece de ser vivido. Não há mais o que esperar. O velho e sua filha e seu genro decidem seguir para fora, rumo à realidade de um mundo que não é ficção, que não é caricatura ao gosto do freguês, para ser vendido em compotas de vidro ou em sacos de plástico. Lá fora há o amor a espera, há o pequeno cão de nome revelador: Achado. Trata-se, pois, de se reencontrar. Fugir do Centro rumo ao horizonte é a nova forma que Saramago, habilmente, forjou para ilustrar a busca pela verdade.


Mas a verdade é que o Centro ou a cidade não são propriamente a caverna que aprisiona os homens ignorantes. Antes, o enredo de Saramago almeja demonstrar, quase como sendo um esboço de tese, que as misérias humanas são fruto da vida capitalista na cidade. Se lêssemos Platão novamente, saberíamos que toda a alegoria ilustra o processo de educação, e como uma forma de educação é que a saída da caverna expressa a descoberta da verdade. Não é a cidade o pior dos pecados humanos, mas a sua insistência em aprisionar-se em suas próprias opiniões. Quando nos prendemos com afinco a certas ideias, mal compreendemos sua origem e o modo pelo qual, sem percebermos, nos aprisionamos em um mundo de sombras.


Nesse sentido é que a obra de Saramago, apesar de anticapitalista ou contra o que poderia expressar o intuito humano de um ideal tecnológico, revela sua habilidade: o que o artesão vê ao descer a caverna é aquilo mesmo que ele se recusa a vivenciar, é como se ele estivesse a vida toda do lado de fora e, ao entrar naquela prisão, descobrisse a si mesmo privilegiado. Mas a sua sentença final, somos todos nós, não permite essa interpretação: o que se vê habilmente retratado pelo escritor português é a miséria do homem que se recusa a viver por medo de ter que abandonar suas opiniões fixas, aquilo que lhe traz segurança e conforto. E todos estamos sujeitos a isso. A cidade não é senão metáfora das opiniões que não sabemos de onde vieram, mas que temos conosco porque são cômodas.


A revelação final de Saramago, ao tecer sua alegoria, mostra a que ponto se deve ir a fim de recusar uma vida aprisionado. A verdade está lá fora. É preciso ir buscá-la, ou morrer no conforto de sua vida medíocre. Porque mesmo com todo o desenvolvimento tecnológico, não há avanço humano sem educação. Isso já nos ensinara Platão. É isso que Saramago, com um sentido diverso mas com a mesma intenção, habilmente procura nos mostrar, revelando ao fim de que vale a literatura: vale para nos educar. E educar é fazer sair da caverna – ou na linguagem de Saramago, é levar a uma descida em nossa miséria para com isso nos libertar em direção a uma vida digna porque sem medo de abandonar o conforto da prisão. Mas nem todos os que desceram quiseram libertar-se. Para muitos, a caverna era apenas uma situação normal do cotidiano. Nem todos mudam. Ao menos alguns poucos a libertarem-se justificam a obra do grande escritor. E Saramago foi um grande escritor.

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