Para que serve um leitor? Sobre a Leitura


Há um pensamento entre nós bastante comum, o de que ser letrado é coisa de intelectuais, de pessoas cultas, não do povo em geral. Que os intelectuais e os cultos devam ser letrados, não restam dúvidas. Os casos que hoje em dia surgem aos montes, dos ditos "formadores de opinião" que sequer sabem compreender o que escrevem, só comprovam o estado de decadência de nossa cultura. Porém, o ensino e o aprendizado das Letras não se restringe a essa camada da sociedade, a não ser que se pense em intelectuais e cultos que apenas se comuniquem entre si, ou que queiram ensinar os que lhe são iguais - o que não parece ser o caso.


Poucos seriam os que desejam limitar uma comunicação que se pretende bem mais ampla, como o caso da literatura ou dos artigos de jornal, por exemplo. Aqui temos dois gêneros textuais que necessitam, para sua boa recepção, de leitores que sejam capazes de ler bem. A literatura apenas sobrevive quando há bons leitores. Dito assim, no entanto, parece coisa de literato, a reclamar a falta de público. Até o seria, se também o público não estivesse perdendo com isso. A intenção desse pequeno texto será responder exatamente a essa pergunta: o que as pessoas estão a perder deixando de ser boas leitoras?


O caso da literatura é o mais emblemático, e por isso falaremos dela. Pode ser uma sensação frustrante para um jovem imaginar que o mundo não se resume à tela do seu computador, do celular ou da televisão. Muitos nem chegam a se frustrar com a existência (insistente) de livros de papel e de bibliotecas empoeiradas, porque para eles os livros são apenas uma outra forma de contar as mesmas histórias que são vistas no cinema ou narradas em videogames. Quem perderia tantos dias lendo um livro que pode ser conhecido em pouco mais de duas horas ao final de um filme? O caso dos que chegam a perder dias em leituras está muito mais ligado ao fenômeno da paixão pela história do que propriamente pela leitura em si.


Por que tanto pesar com a atividade de ler? Suspeito que haja alguma relação entre o baixo estímulo aos livros e um certo embotamento que essa cultura de excesso de imagens provoca. Nossa imaginação, que é o aspecto da mente que está a trabalhar enquanto lemos, é constantemente sufocada com lixo visual de tudo quanto é tipo, sobretudo pela propaganda e pela televisão. A cultura do audiovisual deixa a alma menos silente, e portanto menos disposta, à quietude da leitura, à concentração no sentido das palavras e nas sensações e imagens que elas são capazes de provocar. Falta quietude a um mundo cada vez maisplugado e antenado a tudo que soe como novidade.


Quero dizer, ao que parece, o hábito pela leitura é a melhor forma de começarmos a nos desligar do excesso de estímulos a que estamos submetidos diariamente. Ler é se aquietar, e quietos podemos ouvir melhor as pessoas, o mundo ao redor, quiçá a nós mesmos. Mas além de nos possibilitar um outro ritmo de vida, menos intenso e estressante, a leitura desenvolve nossa imaginação ativamente: ao contrário dos meios audiovisuais, quando lemossomos nós que produzimos as imagens, fazendo uso apenas daquilo que as palavras nos evocam. A leitura de um livro é única para cada leitor, ao passo que a intenção audiovisual é formatar ao máximo a percepção do público espectador. Que outra forma melhor para começar a desenvolver sua inteligência e deixar de ser alguém formatado?


E talvez tenhamos encontrado aqui o ponto central do problema da leitura em dias como os nossos. Se ler acaba por nos fazer ser mais inteligentes, começaremos a também nos distanciar daquilo que a maioria das pessoas pensa ou faz. O perigo do isolamento assusta muitos jovens, que preferem estar na moda a serem vistos como esquisitos ou diferentes. Este senso gregário puxa sempre a humanidade para baixo e não é possível nos moldarmos por ele se queremos desenvolver as habilidades que possuímos. Sem medo de se isolar do mundo, saiba que a literatura fará com que você aos poucos desenvolva uma compreensão humana tão profunda e vasta que dificilmente não haverão pessoas ao seu redor, interessadas em conversar ou apenas em ouvir você falar. Mesmo que sejam poucos, isso é já uma recompensa.


Cabe, entretanto, que se esclareça o seguinte: há livros que farão isso por você de uma forma exponencial, se comparados a outros. Um livro, para ser capaz de fazer o leitor desenvolver-se de maneira satisfatória, precisa ser tão rico de elementos literários quanto os são aqueles livros chamados clássicos. Umclássico é exatamente uma obra capaz de atravessar gerações ensinando homens e mulheres a melhor desenvolverem sua inteligência e sua cultura humana pelo fato de desenvolverem, de modo inteligente e culto, a diversidade humana possível acerca de algum tema.


Um exemplo de clássico, Crime e Castigo de Dostoiévski torna possível ao leitor um mergulho na alma de um jovem que se vê tentado pela ideia de assassinar alguém que ele considera inútil, e depois de realizado o ato, haver-se com uma crise de consciência que lhe faz adoecer a alma e o corpo inclusive. Quem mergulha na obra do autor russo torna-se mais consciente dos sentimentos que estão envolvidos no fato de orquestrar um crime e de sofrer a pena devida, seja social seja moralmente, além de ampliar sua possibilidade de expressar-se em casos semelhantes e chegar a dizer, com riqueza sintática e semântica, coisas que sequer havia percebido. Não é apenas Dostoiévski que necessita encontrar bons leitores, capazes de em um só fôlego lhe desvendarem a obra: qualquer leitor seu retornará mais humano após esse encontro. É isso o que a literatura faz: torna-nos mais humanos.

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