Afinal, para que serve a Filosofia?



Uma pergunta nesse tom exige esclarecimentos prévios. O primeiro deles, e o mais importante, é saber o que se chama aqui de Filosofia. Talvez o próprio esclarecimento já demonstre o fato de sua relativa ou não relação de serventia. Mas também é preciso esclarecer o que ‘servir’ quer dizer. Pode-se pensar que a Filosofia serve para alguma coisa no sentido de utilidade, mas também com a conotação de subserviência, de estar subordinada ao poder de algo que lhe está acima ou lhe é superior.


No primeiro caso, é bastante comum a pergunta pela eventual utilidade da Filosofia. A opinião utilitarista, que pretende ver em tudo sua finalidade ao bem comum humano, não negaria que a Filosofia parece servir para nada. Afinal, qual a utilidade de se investigar e elaborar ideias sempre problemáticas, postas em questão por outras ideias, conformando assim um espaço de comércio de opiniões que mais atrapalha com dúvidas e dificuldades do que ajuda o bom andamento da sociedade?


No segundo, não são poucos os casos em que, tendo alguma serventia, a Filosofia foi tida como um campo de saber e de atividade subordinada a outro, que lhe seria superior de algum modo, quase sempre em termos de finalidade. Foi assim, por exemplo, na Idade Média, em que a Filosofia era entendida como “o pedagogo que conduz a Cristo”, estando por isso subordinada à Teologia e à Revelação, superiores ao caminho filosófico porque lhe eram o seu fim último e mais digno. Também na época moderna, viu-se com Kant, sobretudo, o modo como a Filosofia passa a ser um tipo de investigação que deve servir ao saber científico, seja tomando este como modelo, seja servindo-o em termos de apreciação dos métodos e dados vindos das diversas ciências. Em ambos os casos, a Filosofia tona-se instrumental, a serviço de uma finalidade mais elevada e superior – opinião que de certa forma permanece até hoje.


Só é possível, a meu ver, uma compreensão da dignidade da Filosofia por ela mesma a partir do entendimento da sua forma originária, exatamente no momento em que ela precisava disputar o espaço que lhe cabia frente a outras formas de saber existentes. Se nas épocas subsequentes a Filosofia desceu a um nível pueril, como dizia Schelling, é preciso voltar o olhar para seu alvorecer, o lugar em que suas forças estavam todas reunidas para abrir a possibilidade ao homem de modificar sua vida pelo apreço ao saber.


Com o que acabamos de dizer, fica patente a força originária da Filosofia: ela é uma forma de saber que constrange toda a vida daquele que a pratica. Antes de ela servir para algo ou servir alguém, a Filosofia é ela mesma senhora do homem que decide a ela se dedicar, porque não há como se dedicar à Filosofia pela metade. O ímpeto filosófico é de tal força que move toda a vida do filósofo na direção do saber. Quem já sentiu o prazer em conhecer algo que antes ignorava ou que supunha saber entende o que sente um filósofo. Porque o filósofo dedica toda sua vida a repetir esse prazer, o desejo de compreender o mundo e a si mesmo.


Estar constrangido a essa busca de compreensão é, Sócrates já havia percebido, decisiva para a educação e o cuidado da alma. Alguém dedicado a essa atividade estará sempre preocupado em fugir da ignorância e da opinião errada, porque as ações danosas são causadas por elas. A ética é assumida desde a origem da Filosofia como a esfera de atuação mais fundamental de todo o filosofar, indicando que não há uma investigação filosófica que não traga, implícita ou explicitamente como finalidade, a sua implicação ética. Implicação que atua mutuamente: sobre o filósofo que investiga e sobre seus interlocutores eventuais e ouvintes rotineiros. Pelo exercício da Filosofia, o processo de educação se torna tão marcado que se poderia mesmo dizer que qualquer Filosofia que não se pretenda educar está a negar sua própria essência. Não que a educação seja o fim superior ao qual a Filosofia serve, mas não há como existir Filosofia sem educação.


E para que a Filosofia educa? Naturalmente, não como uma pedagogia, quer dizer, como ensino a crianças, sobre os saberes básicos para sua elevação à condição de adulto. Ao contrário, está na Filosofia uma educação dirigida a adultos, ainda que jovens na idade, desde que capazes de tomar consciência de que suas ações determinam o tipo de vida que estão levando ou que levarão, e de que é preciso avaliar suas opiniões para poder bem conduzir sua vida. A centralidade da proposta filosófica vale-se do fato de que não se pode dissociar ação de saber. A Filosofia reclama, junto a nós, uma preocupação com as opiniões que conformam nossa vida enquanto acima de qualquer preocupação. Se a Filosofia serve para algo, é para isso: para ser o caminho de saída da caverna das ilusões até ao verdadeiro saber que liberta porque educa, que educa porque liberta. E ela sabe fazer isso como ninguém.

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