A Filosofia e os filósofos


A Filosofia se faz filosofando. E quem filosofa é a pessoa, não um cargo ou uma instituição qualquer. É o filósofo que está no centro da atividade filosófica, e portanto ele deve ter sido compreendido para que se compreenda seu filosofar e sua filosofia.


Uma pessoa está, inevitavelmente, determinada pelos traços psicobiológicos de sua origem, bem como pela educação, convivência e também pelas circunstâncias nas quais a vida e a sociedade em que está inserido lhe servem como uma "segunda natureza". Cada filósofo é, pois, uma síntese muito grosseira de todos esses elementos. Grosseira porque, em última análise, a atividade de filósofo pode ter sido desencadeada por eles, mas o próprio exercício de filosofar os transcende.

Filosofar é, sem suma, buscar transcender seus elementos e, por isso, seus limites por meio de uma visão plena da realidade. A realidade que nos circunda é maravilhosamente maior e mais profunda que nossa natureza e nossas circunstâncias. Filosofar é transcender a si e ao outro em busca de nossa unidade na totalidade da existência. Ser filósofo é buscar a plena transcendência.


Mas o caminho até a transcendência é sempre, na Filosofia, um caminho humano. A religião se diferencia da Filosofia por apresentar um caminho que é divino, um caminho aberto por Deus aos homens. A transcendência na Filosofia é percurso humano até o divino, e como tal só pode se realizar a partir da vida de cada homem ou mulher dispostos a filosofar. É por esse motivo que encontraremos não uma, mas muitas filosofias – melhor seria dizer muitas formas de filosofar uma única Filosofia.


Cada filósofo reúne, a partir de sua natureza e de suas circunstâncias, um trajeto pessoal, uma abertura própria, um aspecto e uma perspectiva da realidade a que almeja. Estudar a filosofia de Platão, de Descartes, de Hume ou de Hegel é sempre estudar um trajeto próprio, pessoal, em vista de se obter a transcendência de si, ainda que sejam filósofos para os quais não há transcendência espiritual, por assim dizer: mas nenhum filósofo, enquanto filósofo, se resume a si e à sociedade de seu tempo, ele procura sempre ser mais que isso.


O artista, contudo, parece procurar igualmente o mesmo, ou seja, transcender a si e ao seu tempo por meio de sua obra. Mas diferente do artista, o filósofo não olha para sua obra como o modelo de perfeição a que tende. O artista é, por definição, interessado no primor da obra que forja, e essa obra é sempre um outro diferente dele. Para o filósofo, não há um interesse maior do que tornar-se sua própria obra.


É enquanto filosofa que o filósofo almeja construir sua filosofia, e portanto ele a constrói em si mesmo, sobretudo. Há filósofos que nada escreveram, como Sócrates, mas para os quais a tarefa maior estava em formar-se a si mesmo como uma obra, em vista da transcendência de si e de seu tempo. Há filósofos que muito escreveram, como Nietzsche, mas para quem sua filosofia não devia ser senão uma forma de existir.


Em detrimento de todos esses tipos de filosofar, e de filosofias, a Filosofia como tal é sempre uma atividade que envolve a vida do filósofo em sua plenitude, e sempre para transcendê-la ao mesmo tempo em que forma sua existência. Mas ela como tal está sempre condicionada aos filósofos, e portanto ao modo pelo qual cada idiossincrasia revelará um caminho próprio para a transcendência. Nesse sentido, estudar a Filosofia não é se prender a um único modo de ser e de transcender a si, não é se prender a um único filósofo como um discípulo servil. Antes, é conhecer os diversos tipos de filosofias como se conhece os diversos tipos de seres humanos, não para condená-los em sua particularidade, mas exatamente para transcendê-los.


E na História da Filosofia, vamos encontrar os mais diferentes tipos de visão de mundo, por vezes dicotômicas entre si, como o caso de Heráclito e de Parmênides no alvorecer do tipo grego de filosofar. Essas diferenças causam, ao iniciante, a suspeita de não haver um único que esteja com a razão, como Sócrates suspeitava das doutrinas Físicas e Kant da Metafísica, ou ainda a postura de que pelo menos um deles está com a razão, e que portanto devemos escolher o nosso lado. Mas filosofar é reconhecer nos filósofos diferentes maneiras de ver a realidade, que é a mesma em sua plenitude. As diferentes maneiras são perspectivas que nos oferecem detalhes para os quais não teríamos um olhar cuidadoso ou mais apurado. Os filósofos são caminhos de compreensão da realidade exatamente porque a traduzem como possuindo múltiplas perspectivas.


Não é possível olhar o mundo apenas de um mesmo prisma, como não é possível chegar a Deus por um mesmo caminho. As religiões em sua verdade própria nos demonstram haver diversos contatos de Deus com os homens, a fim de tornar possível o acesso a Ele por meios diversos, a partir de pessoas diversas, de culturas variadas. Não há uma única religião, mas a Religião é sempre o caminho aberto por Deus para o acesso dos homens a Ele. Da mesma forma, não há uma única filosofia, mas a Filosofia é sempre o caminho aberto pelo homem para transcender a si mesmo.


Sempre haverá múltiplas religiões, porque sempre haverá diversidade entre os homens. E por haver diversidade de temperamentos e de circunstâncias no existir humano, sempre haverá múltiplas filosofias. Estudar a Filosofia, portanto, é saber que um filósofo percorreu o seu caminho a partir de suas circunstâncias, a partir de sua natureza, e que outro exerceu a mesma atividade, mas por outros meios, por outros caminhos, e que cada um nos apresenta uma dimensão da realidade a partir de si mesmo, de sua perspectiva, e que para melhor compreendermos e transcendermos a nós mesmos faz-se preciso nos abrirmos às múltiplas perspectivas.


Na Filosofia, haverá os que procuram o caminho da síntese do real, ou seja, almejam reunir os mais variados elementos, constantemente dispersos no dia a dia, em torno a uma visão que os unifique; haverá, porém, os que procuram o caminho da análise, ou seja, buscam a partir de um ou poucos aspectos da totalidade produzir uma perspectiva em profundidade, decompondo e avaliando os muitos fenômenos que por vezes se escondem de nossa visão cotidiana. Enquanto uns podem ser dito filosofar em panorâmica, outros filosofam com uma lupa. Mas as duas atividades são imprescindíveis. A Filosofia não poderia se realizar sem elas e estudar a Filosofia é reconhecer o papel cooperativo entre ambas as perspectivas. E há inúmeras outras diferenças específicas de cada filósofo e de seu filosofar, que trazem à tona filosofias diversas. Mas a única avaliação de mérito aqui deve ser: esta pessoa que apresenta a sua obra como filosofia de fato filosofou? Se sim, devemos aprender algo da realidade com ele. Se não, é possível aprender algo, mas não a filosofar.

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