O que vi da vida - O homem irracional


O novo filme de Woody Allen é uma metáfora dos tempos modernos. E já o seria só com a substituição do cômico pelo drama: ao contrário de ótimas comédias como Noivo neurótico, Noiva nervosa ou Dirigindo no escuro, O homem irracional lida com a ausência, eu diria, completa de traços cômicos que estavam presentes mesmo em outros de seus dramas. E a ausência do cômico ou a insistência em levá-lo a sério é o tom das culturas decadentes. Aqui, o tom trágico que permeia o enredo e sua significação é submetido a uma quebra de clima tão-somente pela trilha sonora. Se não fosse pela música que embala o thriller, como uma sátira da vida privada, ficaríamos com a suspeita de estarmos a ver um Hitchcock ou um Kubrick: o que há de Allen em O homem irracional destaca-se desta vez mais que todas pelo jazz e blues que nos embalam, iludindo-nos com a crença de que o que vemos é banal e, por isso, risível.


Felizmente, não é só a música o que há aqui de característico da cinematografia de Allen. O roteiro, sempre recheado de diálogos muito bem construídos, prima dessa vez por trazer o melhor de sua crítica ácida ao modo de vida burguês: bem melhor que suas últimas obras, o engenho da trama de O homem irracional, embora bastante simples, surpreende pela sua eficácia. Isso porque Allen constrói seu filme como um símbolo, uma metáfora do homem que se livra do peso da razão por não poder mais suportá-lo, para entregar-se aos instintos mais primitivos em busca de um último suspiro de vida. Encarar a razão como um peso é a imagem mais firme dessa decadente vida moderna: o excesso de racionalidade, entendida como a mais elevada condição humana, é já agora sentido como um juiz mesquinho, que não abre mão de impor sua autoridade a despeito da vida de cada indivíduo e com o qual a existência humana se faz penosa, sombria, sem sentido. O maior peso que a razão pode nos infligir – ela, que constitui a nossa natureza – é mesmo a perda de um sentido em viver.


O professor de Filosofia Abe Lucas é a personagem em que esse conflito se materializa. Pois não poderia estar senão na filosofia o clímax de nossa dissidência com a racionalidade. Allen pinta seu protagonista com os excessos dessa decadência: estudioso da moralidade de Kant e dos existencialistas, Abe Lucas constata o niilismo daqueles que tanto o negaram como a encarnação da miséria da filosofia, reduzida a uma masturbação verbal que definha a vida na medida em que pretende defini-la. O apelo teórico da razão foge à realidade, escondido entre os muros das universidades e dos livros que ninguém lê. Abe Lucas não encontra mais a inspiração para escrever, ressente-se em continuar a ensinar alunos medíocres que não serão amanhã senão uma cópia de si, imersos no cotidiano de seus afazeres e sem a menor resistência à distância que se criou entre o mundo e as nossas ideias. A moralidade de Kant reprime os excessos dos instintos que nos dão vida, na mesma medida em que oferecem o niilismo de seu excesso de racionalidade. É tão sem sentido viver entregue à razão quanto fingir que ela não existe. É necessário dar cabo de sua autoridade. É preciso vencer a razão envenenando-a de uma vez.


Se o peso do juiz Kant oprime a vida com sua teoria, então que a vida encontre uma saída para se livrar dele. É no campo da ação, e não das palavras, que o livramento se opera, pois é na ação que a teoria ganha vida. A possibilidade de matar um juiz que torna a vida de uma pobre mãe uma infelicidade injusta confere a Abe Lucas um novo sopro de vida. Se antes encontrava-se deveras indiferente com relação à existência, o suspiro em poder tornar, por uma ação sua, o mundo melhor inflama o corpo inerte e depressivo do professor até o tom do trágico. Os gregos foram talvez os primeiros a perceber a pulsão trágica que dá à vida sua tonalidade essencial. E se a essência do existir não pode negar sua tragédia, assassinar o juiz opressor é não apenas recuperar a pulsão de vida, mas também é tornar o mundo um lugar mais real. Sem a opressão do juízo, a vida alcança a pulsão plena dos seus instintos, e o corpo respira aliviado o poder satisfazer-se a si mesmo irracionalmente.


A brilhante metáfora que Woody Allen constrói é a do assassinato do juiz: a razão. A morte do desconhecido juiz equivale à ação do professor Lucas de matar a filosofia de Kant que lhe oprime a existência. Morto Kant, é não só possível, mas sobretudo desejável assassinar o homem que impede o mundo de ser um lugar melhor. Morto o juiz, a existência pulsa seu alvorecer sob o crepúsculo da moralidade. Vida e filosofia aqui são os dois deuses, a quem o homem deve decidir sua devoção. Não sendo possível servir a dois senhores, a melhor escolha está em não mais pensar: a simplicidade da vida não merece ser aprisionada no calabouço das ideias e teorias. A jovem aluna, apaixonada pela ideia de se relacionar com um professor trágico, prova na carne a pulsão de seu desejo ideal, e não tarda a satisfazer sua filosofia na cama. Ela só não contava que a tragédia da vida oscila entre o prazer e a dor: a imagem do mestre rendido ao prazer ocultava os traços terríveis da imoralidade tornada regra. E quando é a fúria dos Titãs e não a ordem de Zeus que governa, já vaticinara Hesíodo, reina "a nevoenta escuridão depois de tantos sofrimentos, aprisionados a dolorosas cadeias".


É pela personagem da aluna que a tragédia encontrará seu desfecho. Isso porque a maior lição de um mestre é encontrar alunos que lhes continue o legado. Mas Jill recusa-se a ver a morte do juiz com o frescor pelo qual o vê seu mestre. Ela apaixona-se pelas trevas da razão em seu professor, não pela sua bem-sucedida afronta ao juízo da moral. Seguindo Kant, Jill não pode condescender com o assassinato de uma vida humana, por pior que ela seja. Não há como assassinar o juiz sem pagar a pena. Abe Lucas sofrerá a penalidade: confessado o crime após avolumarem-se as suspeitas que a jovem reúne contra ele, vê irresistivelmente atraído pela ideia de eliminá-la como o fez ao juiz. Não poderia suportar novamente o peso da moralidade sobre seus ombros.


Jill, de uma ninfeta meiga e apaixonada, transformara-se em uma juíza como Kant o era pouco tempo atrás. De discípula havia se tornado promotora. A quem satisfez-se pela deposição da razão não poderia parecer um despropósito calar a voz meiga e apaixonada que o impelia à condenação. Era a liberdade da vida que desejava viver, não a clausura de uma cela de prisão. Planejara a morte de Jill com a mesma frieza daquela primeira, mas o seu espírito estava confuso, preocupado, temeroso. Por acaso, o plano não deu certo. Mas ele morreu tentando. Afinal, era preciso depor todo aquele que ameaçasse ocupar novamente o posto kantiano em sua vida. Morreu tentando matar a aluna que lhe havia feito respirar o charme de sua tragédia. Porque é trágica a vida que decide se livrar do juiz e sair impune. Não há impunidade sob o crepúsculo da razão.

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