Que mal faz ser correto? O "politicamente correto" e a expressividade em falta


O que pode haver em comum entre o apreço das pessoas pela Ana Paula do BBB e a ascensão de políticos menos 'diplomáticos' como um Bolsonaro, aqui no Brasil, ou um Donald Trump, nos EUA, para além de despontarem vez ou outra nas redes sociais? Certo é que se esconde, por trás do rótulo de 'polêmico' que geralmente se emprega a algumas figuras públicas, ou mesmo desconhecidas, uma percepção de suma importância acerca do nosso atual estado cultural: a de que o 'politicamente correto', enquanto pretensa forma de apurar a linguagem para inibir preconceitos, não passa de um inibidor da clareza intuitiva do homem comum, forçado muitas vezes a ocultar o que vê e o que sente entre termos e fórmulas de uma linguajar dito adequado e menos agressivo.


Esse fenômeno é, contudo, bastante complexo. Não poucas vezes, as gerações passadas haviam apontado para a expressividade do homem comum como a fonte de sua obtusidade intelectual para entender aspectos básicos da vida humana, de maneira que a educação sempre foi concebida como a forma pela qual o homem médio poderia obter uma formação que o tornasse mais sensível aos meandros linguísticos, às variações de aspectos sintáticos e semânticos da sua língua, mas também à lógica interna aos discursos, a fim de lhe oferecer uma bagagem cultural cuja substância sem dúvidas se confunde com os valores desejáveis à humanidade. Não por acaso, a tradição literária era parte fundamental de todo esse processo. Como reduto da elaboração consciente das possibilidades da linguagem, a arte literária é o primeiro passo para a formação cultural sólida da sociedade preocupada com a ordem do espírito. Dominar a linguagem é poder melhor elaborar seus pensamentos e suas opiniões, poder expressá-las com precisão e com clareza. É, em suma, dominar-se.


O que surpreende em nossa época, que prima pela polidez do discurso, é ter uma educação que está muito pouco fundamentada na apropriação do legado literário. Aqui no Brasil, os jovens ou leem por obrigação, o que nunca satisfaz a intenção formativa da literatura, ou se reduzem a consumir os best-sellers do momento, dividindo seu tempo com os eletrônicos que inviabilizam uma solidez na formação intelectual. E somos todos, de uns anos pra cá, vítimas mais ou menos irreversíveis dessa situação. Não são poucos os efeitos, dos quais o mais terrível tem sido o nível de analfabetos funcionais que chegam ao ensino superior. Isso cria um paradoxo difícil de resolver: se a literatura, que viabiliza a solidez de uma expressividade da linguagem, foi abandonada faz tempo, em que medida a intenção de polir o discurso pode alcançar de fato uma dinâmica mais humana na intercomunicação dos povos? A solução proposta pelo politicamente correto, como a adoção de eufemismos ou dos chamados 'termos adequados', não passa de uma falsa solução. Pior, ela tende a agravar a ânsia do homem comum por uma linguagem mais baixa, menos comprometida com formalismos, como a melhor forma de se expressar. O abandono da elevação da linguagem é o crime mais comum e menos combatido de nosso país.


Sem duvidar que possa haver um vínculo estratégico entre a queda do poderio linguístico e a ascensão desse linguajar padronizado, parece bastante emergencial ter de considerar o politicamente correto como uma tentativa algo medíocre de conter a expressividade dos povos em vista de uma humanidade desejável. Toda e qualquer padronização linguística, seja a da lógica matemática ou a de uma possível língua universal (como o caso fracassado do Esperanto), é um empobrecimento da dimensão humana, não a sua tradução. Conter a diversidade do humano por meio de uma forma universal de dizer, isenta de preconceitos e supostas afrontas a minorias, nunca será o melhor caminho para fazer florescer nossa humanidade, muito ao contrário.


É por esse motivo que as figuras, públicas ou não, dotadas de um discurso politicamente incorreto, costumeiramente rotuladas de 'polêmicas', atraem tanto a gente comum. Forçados a se conterem em uma linguagem que não os representa, a distância cada vez maior entre a pompa dos eufemismos linguísticos e o cotidiano da ralé só se vê um pouco diminuída quando alguém de quem se esperava uma fala mansa põe à luz toda a verbosidade do que vemos e não podemos dizer. É feio ver alguém descer do salto? Só para os espíritos mais sensíveis – melhor, frouxos. Em alguma medida, aplaudir alguém que fala sem medo é chamar a atenção para a natureza do discurso: a linguagem foi feita para servir à expressividade do homem ao dizer o que está a perceber, não para lhe dizer o que ele deve ou não dizer sobre o que está vendo. Só uma educação afim com a literatura pode ser capaz de dotar o homem comum de uma força expressiva para dizer o real. Alterações politicamente corretas são a melhor forma de ocultá-la.

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