O que vi da vida - Ida


Acabo de encontrar uma heroína. Os heróis não são muito comuns em nossos nublados dias de uma cultura laica em decadência. O niilismo ao mesmo tempo iniciado e vaticinado por Nietzsche, o apóstolo da gratuidade da vida, é a atmosfera dos encontros e desencontros entre o cinema e a vida cotidiana. Contra o niilismo já se levantaram os maiores absurdos, das teorias às guerras, incluso os filmes. Todos eles são absurdos porque negam a própria lógica niilista que tanto defendem. Se não há sentido algum na vida, para que criar um?


A pergunta de Camus é de fato a pergunta fundamental de toda a atitude filosófica genuína em nossos dias sangrentos. Ao homem, cabe ser corajoso a ponto de não desejar fugir a seu destino. Dele se exige algo heroico, como nos grandes períodos da história da humanidade. Por isso a minha satisfação. Encontro algo de heroico em Ida, um filme polonês de 2013 que chegou a vencer o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015. A insatisfação dos poloneses com a premiação tem um motivo: parece que sua arte só comove o ocidente quando estão em causa os judeus. Mas Ida é muito mais do que um filme sobre as cinzas que restaram da Grande Guerra. Ele aponta para o transcendente, como a fênix que renasce depois do fim.


E tiveram razão os poloneses. O filme de Pawel Pawlikowski começa por se situar como um dos melhores espécimes da arte cinematográfica. Cinema não é literatura ou pintura, não é um jogo de videogame. Ao contrário dos filmes de massa que atraem exatamente pelo seu entretenimento tecnológico ou por diálogos que constrangem o espectador pela vacuidade do que dizem, quando não é o caso, muitas vezes, de uma voz que entrecorta as cenas a narrar aquilo mesmo que as imagens podem nos dizer, Ida representa o melhor do cinema como arte. Com uma fotografia soberba e pelas atuações cirúrgicas, os tons de cinza que frequentam nossa cultura atual são pinceladas pelas imagens de Pawel, que suspiram mais que palavras. Um filme assim anseia por ser comentado após o espetáculo. Um filme assim realiza toda a dinâmica que o cinema como arte traz em sua essência.


Depois do fim da Guerra, sobraram os restos de um mundo a ser construído. Sim, restos não só do que fomos mas sobretudo do que queremos ser. A jovem Ida, antes de tomar os votos em sacrifício de sua vida a Deus, é aconselhada pela madre superior a encontrar sua tia, único familiar vivo, para conhecer as origens da história de seus pais. O encontro com a tia, contudo, traduzirá um encontro com a própria essência dissoluta e sem sentido de um mundo entregue à desilusão. Os traços bárbaros e animalescos da tia se opõem a tudo o que seu mundo civilizado significava no convento. Não há verdades ou princípios aqui fora.


Após reencontrar sua história no desfecho covarde da vida de seus pais pelo simples fato de serem judeus, Ida retorna ao convento para firmar seus votos, deixando a tia inconformada pela vida perdida da sobrinha tanto quanto pela perdição em que ela mesma se encontra. Mas Ida volta diferente. O encontro com o mundo cinzento que até então desconhecia marca o sentido de sua dedicação ao sagrado: como sua tia havia falado certa vez, não faz sentido sacrificar o que não se tem. Para sacrificar a vida a Cristo era preciso conhecer, sentir e se apaixonar por ela. Ida adia seus votos. Tem de voltar para o mundo cinzento.


Quando retorna, porém, sua tia já o havia abandonado. Jogara-se da janela em uma manhã nublada, talvez por considerar insuportável continuar a viver aquela vida mesquinha e dissoluta, entregue ao sexo e à bebida, ausente de razão. A jovem Ida toma para si o lar da tia, e junto a ele os prazeres que ela tanto louvara e pelos quais havia encerrado a própria existência. A jovem Ida está decidida em conhecê-los. Na bebida e no prazer, contudo, a vida não nega sua vacuidade. Ao contrário, mesmo o amor pelo jovem saxofonista, a quem entrega seu ar jovial e casto, não lhe é capaz de atrair para o destino de viver. E não a atrai porque está ausente de sentido. A tia sentira isso na própria pele. Ida, para não se entregar ao mesmo fim, retorna ao convento.


Este é um retorno simbólico. Ida almeja um sentido. A vida cinzenta não a atrai. O diálogo que antecede seu regresso ao convento condensa toda a sensação que a arte do filme de Pawel Pawlikowski quer expressar. Na cama com o jovem saxofonista, a perspectiva de uma vida comum - segundo o jovem: com os problemas e as delícias de sempre - é o resumo de uma finalidade que não corresponde ao forte traço idealista que constrange Ida a seguir de volta ao princípio. Agora, porém, resolvida a sacrificar-se a si e ao mundo por um bem maior.


Quem haveria hoje de fazer o mesmo? Quem ainda escolheria friamente, racionalmente, a paixão pelo princípio, pelo bem, pelo divino, em uma terra onde os prazeres e as dores da vida ordinária são as mais altas aspirações? O cinza da fotografia do filme ilustra-nos a atmosfera na qual precisamos escolher hoje a vida digna de ser vivida. Logicamente, só há duas opções: ou se entregar ao suicídio, ou retornar em busca dos princípios. A heroína Ida opta pelo segundo caminho, com a coragem de quem despreza o niilismo para afirmar de novo o que ele insisti em negar: a razão da vida só pode estar naquilo que a transcende.

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