Um passeio sem asseio pela Bienal do Rio 2015



A Bienal do Rio termina hoje (13), e com ela a dúvida sobre se o evento tem por objetivo a obtenção de novos leitores ou de maior lucro em cima de um público ávido por novidades, mas ausente de critérios e parâmetros para avaliar o que consome. Termina a dúvida porque, para mim, não é difícil perceber o interesse girar em torno à segunda opção.


Talvez alguém diga que a distinção entre novos leitores e maior lucro não faz sentido, porque uma coisa atrai a outra. Não é bem o caso. O que quero dizer é que há uma diferença entre aumentar o número dos interessados pela leitura ao promover-lhes maior acesso aos livros, e outra é aproveitar-se de uma demanda latente para angariar uma maior lucratividade para seus livros. Uma tem por objetivo atrair o público para o ato de ler. Outra tem por finalidade aumentar suas vendas com efeitos de propaganda.


A demonstração de que a Bienal encontra-se envolvida com o segundo caso está na própria organização do evento: mais espaço para a tecnologia e grandes empresas e palestras (que não estão necessariamente ligadas aos livros). O público jovem entre 14 e 24 anos é sim o foco privilegiado das demandas editoriais brasileiras, mas sua reprodução no Riocentro não é mais que uma caricatura, visível a quem saiba ler a situação: esses jovens só interessam por seu potencial consumidor, cuja força é digna de consumo, mas não de investimento.


O acesso ao livro na Bienal do Rio é uma afronta, uma violência, que já começa na precária localização do evento. A Barra e o Recreio são bairros apenas no papel: na rua, tornou-se um enorme canteiro de obras. Não há vias, sinalizações, não há conduções suficientes. Tudo beira ao improviso caótico e à falta de organização. Isso que se constata no caminho até o Riocentro está refletivo em seu interior. Embora o espaço seja amplo e arejado, ainda está até hoje muito pouco distribuído, em nada favorece aos que se dispõem a comparecer ao local via transporte público e tem a pior das dinâmicas de direcionamento dos pedestres.


Se fossem apenas detalhes geográficos como esses, poderíamos até entendê-los como uma forma de desafio para chegarmos a um lugar tão esperado. Mas a coisa é pior em termos de receptividade e economia. Os banheiros são poucos para a quantidade de pessoas que os ávidos por vendas se dispõem a receber, não há uma praça de alimentação decente para a mesma quantidade de gente e, como se não bastasse, os preços e a oferta de alimentos assusta os menos favorecidos para o gasto, como eu. É uma violência pagar tão alto por uma água, os caixas eletrônicos disponíveis são irrisórios, não há bagagens e carrinhos de fácil locomoção para os que querem fazer grandes compras. Isso tudo pode soar como uma contradição, se aceitamos que o evento visa apenas o lucro. Mas o que mencionei são detalhes relativos ao bem-estar dos clientes, e para isso, a avidez por vendas às vezes se faz cega.


Mas falemos de livros. Afinal, fomos para comprá-los: isso se fosse possível. Porque dado o caráter já dificultoso de tudo que apontei até aqui, o preço dos livros em nada ajuda a quem esteja interessado neles. Engraçado, todos nós que nos dispomos a enfrentar tudo isso estamos interessados em quê mesmo? Pois não parece que as editoras e livrarias perceberam que uma feira de livros deveria, no mínimo, oferecê-lo a um preço menor que aquele que se pode encontrar em uma livraria nos dias normais ou pela internet. No mínimo a um preço menor... Onde estão os descontos, as promoções?


Por que razão eu deveria sair de casa, enfrentar toda essa dificuldade, para adquirir um livro com o mesmo valor que eu poderia comprá-lo no conforto da minha casa?


Essa talvez seja a pergunta central para chegarmos a definir o que esse evento no Rio pode significar para os realmente interessados em livros. A violência dos preços, de comidas a livros, e a precariedade do acesso ao local sugere que a pergunta deveria ser respondida por um sonoro: não há razão alguma. O dia em que uma feira de livros estiver mais bem preparada para transformar os jovens em ávidos leitores, assim como os adultos e as crianças, será o dia em que a única violência sofrida estará ou na imaginação aflorada por uma história, ou na falta de tempo disponível para lermos tantas outras. Mas por aqui, livros ainda são vistos como celulares ou como comida congelada. Não nos tornam senão mais dependentes dos mais novos lançamentos, e com isso enriquecem as editoras e não a nossa alma.

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